Arquivo | fevereiro, 2012

Lesões Musculares

25 fev

 Lesões musculares: como ocorrem?

 Inicialmente, vou abordar alguns conceitos de anatomia que muitos não conhecem e que são essenciais para compreender por que ocorrem alguns tipos de lesões nos esportistas de maneira geral e nos bailarinos em particular.

Articulação é a união de um osso a outro. Exemplos de articulações no corpo humano são o ombro, o quadril, o joelho e o tornozelo. Os ossos são ligados uns aos outros por ligamentos e por músculos, sendo que a parte final dos músculos, que se prende aos ossos, é denominada tendão.

A principal diferença entre ligamentos e músculos é que os ligamentos não são capazes de se contrairem e de produzirem movimento; sua função é apenas a de dar estabilidade a uma articulação. Os músculos, pelo contrário, são capazes de se contrairem e produzirem movimentos, além de ajudar na estabilização.

Para cada grupo de músculos capaz de realizar um determinado movimento existe outro grupo de músculos capaz de evitar este movimento e de gerar o movimento oposto. Assim, por exemplo, existe um grupo de músculos que faz o joelho esticar e outro que faz o joelho dobrar. Músculos que realizam o mesmo tipo de movimento são chamados agonistas, e os que realizam movimentos opostos, antagonistas.

O movimento de uma articulação depende, desta forma, do equilíbrio da musculatura que a cruza. Assim, se os músculos que fazem o joelho esticar estiverem se contraindo com mais força do que aqueles que fazem o joelho dobrar, o joelho irá esticar. Os músculos flexores do joelho (aqueles que fazem o joelho dobrar), mesmo que estejam produzindo força, se alongarão. Este processo é semelhante ao que ocorre em uma brincadeira de cabo de guerra, quando um grupo de pessoas, mesmo tentando puxar a corda para trás, é puxada para a frente.

Quando existe um desequilíbrio de forças entre um grupo muscular agonista e um grupo antagonista, o grupo mais fraco terá que fazer um esforço excessivo para manter a estabilidade de uma articulação e entrará em fadiga. Caso o esforço persista, o músculo não mais será capaz de resistir à força realizada pela musculatura antagonista e ocorrerá uma lesão muscular.

Evitando lesões musculares

Ao se compreender o que causam as lesões musculares, fica muito mais fácil de se compreender o que pode ser feito para evitar estas lesões. Abordarei aqui alguns aspectos excenciais na prevenção das lesões musculares.

1. Reequilíbrio muscular

A maior parte das atividades físicas, entre as quais a dança, requer a repetição de movimentos. Com o tempo, isso faz com que certos grupos musculares fiquem muito mais fortalecidos do que seus antagonistas. Um exemplo é a posição em dehors, preconizada na maior parte dos exercícios do ballet, na qual ocorre a rotação da perna para fora. A musculatura que mantém a perna em dehors é muito mais trabalhada do que a musculatura que mantém a perna em dedans. O desequilíbrio de forças pode levar a uma lesão dos músculos rotadores internos do quadril (responsáveis por manter a perna em dedans). Da mesma forma, os músculos dorsais na coluna são muito mais trabalhados do que os abdominais, e diversos outros exemplos poderiam ser dados.

As pessoas que praticam esportes com uma carga horária elevada devem, desta forma, buscar intercalar diferentes tipos de exercícios. No caso dos bailarinos, por exemplo, é recomendável também praticar outras formas de atividades físicas, buscando trabalhar os grupos musculares que não são muito exigidos na prática da dança. Isso evita as lesões musculares bem como outras lesões por sobrecarga, como as tendinites e as dores articulares em geral.

2. Alongamento

A falta de alongamento adequado faz com que a musculatura trabalhe sempre no seu limite, colocando-se sob o risco de lesão. Os bailarinos possuem um alongamento excessivo nas suas articulações, mas vale lembrar que os exercícios realizados no ballet também exigem movimentos que vão além do que seria considerado normal para a população em geral. Portanto, não deixem de fazer os exercícios adequados de alongamento!

3. Aquecimento

A musculatura, quando não está aquecida, tem uma capacidade limitada de se alongar. Se os exercícios forem iniciados sem o aquecimento adequado, ao se tentar realizar movimentos que exijam grande alongamento da musculatura esta ficará sob risco de lesões.

4. Evitar fadiga

Já foi usado o exemplo do cabo de guerra, que usarei novamente. Quando as pessoas estão cansadas, fica muito mais fácil elas serem puxadas para o lado oposto. Com a musculatura ocorre o mesmo, e uma musculatura fatigada está mais arriscada a ter lesões. Isto explica por que as lesões musculares ocorrem com mais frequência ou no início dos exercícios (quando a musculatura não está aquecida) ou no final (quando há fadiga).

Portanto, ao praticar a dança – e isso vale para qualquer esporte! –, é importante seguir alguns princípios: não exceda na carga horária se seu corpo não estiver preparado para isso; evite aumentos repentinos na carga horária; alimente-se adequadamente; tenha períodos de descanso adequado, e respeite este período para realmente descansar – um período de sono adequado é essencial.

 

Me machuquei. E agora?

As lesões musculares podem ser classificadas em três graus crescentes de gravidade:

Grau I: estiramento muscular. Ocorre uma deformação das fibras musculares, que se tornam alongadas e não são capazes de retornar ao comprimento original. Essas lesões produzem pouca limitação e em um curto período o atleta poderá retomar as performances.

Grau II: rotura de algumas fibras musculares (rotura incompleta do músculo). Essas lesões produzem maior limitação e exigem maior período de afastamento.

Grau III: Rotura completa do músculo. Essas lesões exigem período ainda maior de afastamento e em alguns casos pode até ser indicado o tratamento cirúrgico.

Um profissional experiente é capaz de avaliar razoavelmente bem o grau de gravidade de uma lesão apenas examinando o paciente, mas em casos mais incapacitantes é benéfico fazer uso de ultrassonografia ou ressonância magnética para ajudar, pela imagem, a determinar o grau da lesão.

O tratamento inicial, no entanto, é o mesmo, independente da gravidade da lesão, e o ideal é que seja iniciado assim que a lesão ocorre, de preferência ainda no local onde ocorreu. Consiste de cinco fatores denominados em inglês pela sigla PRICE (Protection, Rest, Ice, Compretion and Elevation), que, traduzindo para o português, seria Proteção, Repouso, Gelo, Compressão e Elevação.

Proteção: pode variar do simples afastamento da atividade esportiva até o uso de muletas ou mesmo a imobilização, dependendo da intensidade da dor.

Repouso: deve ser o maior possível para evitar a dor

Gelo: pode-se colocar uma bolsa de gelo sobre o local lesionado por cerca de 15 minutos, com intervalo mínimo de 4 horas entre as aplicações; períodos maiores do que 15 minutos ou menores do que 4 horas de intervalo podem ser prejudiciais.

Compressão: feita através de enfaixamento, sem tensão excessiva.

Elevação: de acordo com o local e a gravidade, elevar a região acometida.

A avaliação da lesão por um médico especializado é importante para determinar qual a musculatura acometida e qual o grau da lesão, para que seja indicado o tratamento correto. Além dos fatores indicados acima, que podem ser iniciados pelo próprio atleta, pode-se usar medicamentos para o controle da dor, mas isso não deve ser feito de forma indiscriminada: os antiinflamatórios, por exemplo, usados muitas vezes sem prescrição médica, podem prejudicar a cicatrização muscular se tomados em excesso.

O retorno à prática do esporte deve ser feito conforme orientação médica. O retorno precoce, assim que a dor melhora, pode levar a uma re-rotura, e todo o período prévio de tratamento terá sido perdido.

Peculiaridades da dança em relação às lesões musculares

As lesões musculares mais frequentes ocorrem na região posterior da coxa, e entre os bailarinos isso não é exceção. Entre eles, porém, o padrão das lesões é diferente.

Na maioria dos atletas, como os jogadores de futebol e os corredores, por exemplo, as lesões ocorrem devido a contrações musculares muito intensas, como em uma corrida rápida. Em geral, essas lesões ocorrem pouco acima do joelho.

No caso dos bailarinos, as lesões ocorrem em movimentos relativamente mais lentos, porém com uma amplitude de movimento excessiva. A região acometida em geral é mais acima, próxima ao quadril, e infelizmente a recuperação destas lesões é mais difícil: a vascularização do músculo nesta região é pior, fazendo com que o tempo de recuperação seja mais prolongado; a dor nem sempre é um bom parâmetro, uma vez que costuma ser relativamente mais leve, dando a impressão de que a recuperação será fácil; as cicatrizações insuficientes e a re-rotura destas lesões são bem mais frequentes do que aquelas que ocorrem próximas ao joelho.

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