Arquivo | dezembro, 2011

O bailarino é diferente dos outros atletas

27 dez

 

“Não adianta o bailarino subir na ponta se

 quando estiver lá não for capaz de fazer nada”,

 dizia George Ballanchine, um dos maiores coreógrafos do ballet.

Ou seja, entenda e respeite seus limites.

Um mesmo tipo de lesão no pé de um bailarino que dança oito horas por dia, boa parte do tempo em exercícios de ponta, e no pé de um nadador que pratica as mesmas oito horas diárias, mas dentro de uma piscina, é muito diferente e requer tratamentos diferenciados. O tratamento bem sucedido de uma lesão depende de um diagnóstico correto, é claro, mas também da identificação daquilo que está provocando a lesão. Desta forma, o entendimento das características da atividade física praticada pelo bailarino é fundamental.

A busca da flexibilidade extrema, a rotação da perna para fora (dehors), os exercícios de ponta e meia ponta e a idade precoce com que a maioria dos bailarinos inicia suas atividades são próprias do ballet e podem provocar uma série de lesões. O médico que trata de bailarinos deve ser capaz de identificar esta associação e de identificar quando o bailarino está ou não preparado para fazer certos exercícios.

Todo bailarino sonha em dançar na ponta, mas isso impõe grande demanda física e, se o corpo não estiver preparado, o bailarino provavelmente desenvolverá lesões – ao contrario do que muita gente pensa, o trabalho de ponta não depende apenas de um bom pé, mas do preparo de todo o corpo, o que significa, por exemplo, que se uma bailarina não tiver força suficiente na musculatura do quadril, ela não será capaz de manter o corpo equilibrado sobre a ponta do pé. Da mesma forma, nem todos são capazes de conseguir outro dos grandes objetivos dos bailarinos, que é a posição em dehors de 180 graus: a estrutura óssea, ainda que variável de bailarino para bailarino, não pode ser modificada pelos treinamentos, de forma que quem tem um quadril com menos mobilidade pode treinar quanto quiser que o quadril não será hipermóvel.

Os bailarinos dificilmente aceitam suas limitações, e muitas vezes forçam o corpo excessivamente – não só o pé e o quadril, mas também o joelho, o tornozelo, os ombros e até mesmo a manutenção de um peso baixo, tudo isso podendo gerar diferentes lesões.

Existem diversos critérios para dizer quando um bailarino está pronto para fazer determinados exercícios, mas não existe consenso em relação a estes critérios nem mesmo entre os profissionais de grande renome. No entanto, um médico experiente na área deve ser capaz de identificar quando um bailarino desenvolve uma lesão por não estar suficientemente preparado para a atividade e deve orientá-lo em relação ao que fazer para que seu corpo se prepare melhor.

Muitos bailarinos começam a dançar como recreação antes dos 3 anos de idade, e às vezes ninguém se dá conta do quanto a carga de treinamentos vai aumentando até que, com oito ou nove anos, a rotina é bastante extenuante. Já nessa idade começam a aparecer queixas de dor. No começo, parece normal, afinal “todo bailarino tem uma dor ou outra” e “o show tem que continuar”. Mas passa o tempo, a dor começa a piorar, o bailarino percebe que alguma coisa está errada e vem o medo de falar para o pai ou para o professor. Vai que ele é substituído numa apresentação! Se você é bailarino ou bailarina, sabe bem do que estou falando. Muito provavelmente você se identificou com o que está escrito acima, e, se não, certamente identificou algum amigo bailarino.

A idéia de que quanto mais se suportar a dor e o sofrimento melhor será o resultado final é comum a muitos atletas, treinadores e, também, a muitos médicos. Quem está acostumado a trabalhar com atletas, porém, sabe que isso não é verdade. Quando uma pessoa treina três, quatro horas por dia ou até mais, certamente ficará vulnerável a lesões. Os menos preparados e os que tiverem mais lesões irão parar pelo caminho, e os que se profissionalizarem e tiverem maior sucesso na profissão serão certamente os que são capazes de manter as queixas num patamar em que elas não chegam a atrapalhar o desempenho.

Isso tudo pode parecer contraditório quando se conhece o sofrimento dos bailarinos de uma companhia profissional de ballet, mas certamente os que conseguiram superar as dificuldades físicas são testemunhas dos numerosos exemplos de colegas que abandonaram os treinamentos devido a uma lesão. Por isso tudo, atenção: mesmo que não seja seu objetivo ser um bailarino profissional, mantenha-se alerta para qualquer indício de lesão e procure avaliação especializada logo no início, quando a lesão é mais facilmente tratada.

Não é função do médico fazer com que seu paciente tenha risco zero de lesões, mas, sim, deixá-lo nas melhores condições possíveis, com um mínimo de dor e sob o menor risco possível para lesões dentro daquilo que ele se propõe a fazer, assim como é função do médico expor para seu paciente os riscos que ele eventualmente corre. Mas quem deve decidir entre continuar ou não a prática do ballet é o próprio bailarino ou seus familiares, não o médico. No entanto, é possível construir uma boa relação entre médico, bailarinos, pais e professores, de forma a que todos trabalhem para um objetivo comum: a prática do ballet da forma mais saudável e técnica possível.

O conhecimento das características próprias do ballet pelo médico é extremamente importante para que todos falem a mesma língua e briguem por um objetivo comum, que é permitir a continuidade da prática do ballet com um mínimo de queixa.

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